segunda-feira, 3 de novembro de 2008

MUNDO MELHOR


Raras vezes umas eleições presidenciais americanas terão despertado tanto interesse no mundo inteiro. O que paradoxalmente sucede num momento em que os EUA se apresentam particularmente vulneráveis do ponto de vista económico e registam índices de popularidade como país bastante baixos.Este interesse resulta, antes do mais, da convicção que todos temos de que o resultado das eleições acabará por ter um impacto significativo na nossa própria vida corrente.Mas também da inequívoca novidade que trouxe a candidatura de Barak Obama. Novidade que resulta sobretudo de, pela primeira vez na história, um americano negro poder ser eleito para a Casa Branca. E este aspecto simbólico tem por vezes obscurecido outros aspectos inovadores que a candidatura democrata trouxe para a ribalta da vida pública americana.Não se trata apenas de Obama ser um orador eloquente e dar provas de uma notável autocontenção perante a campanha negativa que contra ele foi movida, acima dos padrões a que nos habituámos nas eleições americanas. A campanha presidencial democrata usou meios e adoptou métodos de construção de um movimento de opinião muito assente em redes de contacto ou de convergência de interesses individuais e sectoriais, beneficiando das novas tecnologias de informação e de comunicação, que recolocaram o cidadão individualmente considerado no centro do diálogo político com o próprio candidato.Estes aspectos inovadores merecem ser estudados, na medida em que muito provavelmente farão escola e serão replicados noutros quadrantes geográficos.O enquadramento multilateralista das suas posições políticas fundamentais, a persistência nas grandes linhas económicas que definiu mesmo antes da crise financeira e que foram reiteradas e ampliadas depois da queda de Wall Street, a clareza do seu discurso sobre os malefícios dos offshores não regulados (como nunca antes havia sido feito por qualquer outro candidato presidencial), a retoma de uma linha de orientação assente na redistribuição da riqueza pela via fiscal, tudo isto contribuiu para que afirmasse uma dimensão de estadista com um rumo e uma vontade que muito o beneficiou perante o comportamento errático do seu adversário.Como chamava a atenção Timothy Garton Ash esta semana no Guardian, Obama foi-se construindo durante os dois anos que leva de campanha, e essa evolução foi presenciada e escrutinada pelos próprios eleitores em todos os seus momentos decisivos.Claro que em democracia não há vencedores antecipados. E as sondagens ainda se apresentam, em aspectos críticos para a vitória, dentro de uma margem de erro que não permite dar nada por adquirido. Mas os sinais apontam para ser mais forte a probabilidade de uma vitória de Obama.Nisso parecem acreditar, aliás, os defensores portu-gueses de John MacCain, que se consolam por antecipação, prevendo as desilusões que um Obama-Presidente dará aos seus defensores europeus (maioritariamente de esquerda).Tendo manifestado há muito tempo (logo no começo das próprias primárias) a minha preferência por Obama, fi-lo sempre na certeza de que Obama seria eleito Presidente dos EUA... para defender os interesses americanos, claro está! E esses interesses, em vários momentos, não coincidirão com os interesses europeus.Mas a diferença da eleição de Obama virá dos valores, não dos interesses. E é esse reencontro com valores que mais facilmente partilharão americanos e europeus que me motivam neste momento. Valores que uma certa retórica neoconservadora espezinhou e depreciou nestes últimos oito anos e em relação aos quais os europeus, na sua esmagadora maioria, permaneceram afectos.É que para os europeus em geral, e para a esquerda europeia em particular, será sempre preferível que o Presidente dos EUA seja alguém que sabe que a América precisa do mundo. Já que a esquerda europeia que acredita na liberdade, no multilateralismo e na tolerância, por seu turno, é a esquerda que sabe que o mundo precisa de uma América predisposta ao diálogo e liderada por quem sente na sua própria condição humana o valor do respeito das diferenças!Porque esse será, sem dúvida, um mundo melhor!

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